OPINIÃO / País vive onda de modernismo reacionário, diz sociólogo

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ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO 

O país vive uma onda conservadora. "Há um modernismo reacionário, que sempre é favorável ao sistema capitalista, por mais que critique esse ou aquele aspecto da vida política, como a corrupção e a má administração". 

É o que avalia Michael Löwy, sociólogo paulista radicado em Paris. Junto com o norte-americano Robert Sayre, ele está lançando no Brasil "Revolta e Melancolia". 

Para Löwy, o elemento mais preocupante da extrema direita conservadora no país, sem paralelo com a que existe na Europa, é o apelo aos militares. "O saudosismo da ditadura militar é o aspecto mais sinistro da recente agitação de rua conservadora no Brasil", diz. 

Claudio Belli - 13.out.2014/Folhapress
O sociólogo Michael Löwy 

As semelhanças com o movimento de direita europeu surgem, segundo ele, na ideologia repressiva, no culto à violência policial –como na "bancada da bala" nos parlamentos– e na intolerância com as minorias sexuais. 

Do outro lado do espectro político, Löwy relaciona a crise do PT com a "perda de seu horizonte radical". Afirma que o partido perdeu contato com suas bases populares, aderiu ao receituário neoliberal e fez desaparecer de seu programa a tese socialista. 

Alinhado com a esquerda, ele advoga que outras organizações, como o PSOL ou o PSTU não conseguiram ocupar o espaço que havia sido do PT, ainda que possam vir a fazê-lo no futuro. 

"Quem vai decidir se haverá uma saída para a esquerda serão os movimentos sociais: os sem-terra, os sem-teto, os sindicalistas, os ecologistas, os indígenas, as mulheres, os afrobrasileiros", opina. 

Romantismo 

"Revolta e Melancolia" percorre música, literatura, artes plásticas, filosofia. Rousseau, Goethe, Stravinski, Rosa Luxemburgo, Tolstói, Marx, Balzac compõem a trama da análise. 

Para os autores, o romantismo não é só um movimento artístico do século 19: está nas jornadas de Maio de 68, na luta ambiental, nas artes no Brasil dos anos 1960, na resistência armada à ditadura militar, em protestos contemporâneos na Europa, nos EUA e na América Latina. 

A ênfase está no que os sociólogos definem como romantismo revolucionário –"o que não deseja uma volta ao passado, mas uma volta pelo passado, em direção à utopia futura", diz Löwy. 

Publicado em francês originalmente em 1992, o livro interpreta manifestações de oposição ao avanço capitalista. "Naturalmente o romantismo se transformou. Suas formas são diferentes das do século 19 e das de 30 anos atrás. Mas a análise continua válida. O romantismo é uma crítica à civilização burguesa, que continuará a existir enquanto persistir a burguesia", afirma o brasileiro. 

REVOLTA E MELANCOLIA
autores Michael Löwy e Robert Sayre
tradução Nair Fonseca
editora Boitempo
quanto R$ 57 (288 páginas) 

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