OPINIÃO / O circo dos horrores no velório de Campos, por Ronaldo Souza

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Ronaldo Souza


Confesso que me chocou.

Somente 12 dias após a sua morte, escrevo sobre a tragédia que abateu Eduardo Campos e as pessoas que estavam com ele naquele avião.

Preferi assim para não me deixar levar por deduções ou conclusões precipitadas, ainda que desde o início algumas posturas já indicavam o rumo que as coisas iriam tomar.

O comportamento da imprensa em absolutamente nada representa qualquer novidade. A imprensa é isso aí; sórdida.

É inevitável o uso de uma expressão em inglês que é muito utilizada na imprensa mundial:

“Good news is no news”.

Notícia boa não é notícia.

Isso espelha o interesse por situações como essa. A comoção é trabalhada nos mínimos detalhes. Entretanto, não me lembro de ter visto tanta sordidez antes.

Relembremos a morte de Ayrton Senna.

Comoção nacional.

A imprensa, no seu uniforme de gala, nos fez chorar a morte de um ídolo nacional.

O Brasil chorou.

Mas naquele momento, apesar de eventuais abusos, não parecia haver outro sentimento que não fosse a dor pela perda de Ayrton Senna, um ícone nacional.

Parte da própria imprensa chorou junto com o Brasil.

Não foi assim dessa vez.

O que aqueles homens fizeram com os filhos de Eduardo Campos foi absolutamente execrável.

Ali nada reverenciava Eduardo Campos.

Filhos não enterram o político. Filhos enterram o pai.

A dor dessa hora não pode ser substituída por camisetas e punhos cerrados. Aquilo não era uma batalha a vencer.

Ainda que seja o que ocorre com todos nós, ainda que seja o final esperado, representava a primeira grande derrota imposta pela vida a aqueles meninos.

Como impor aquele espetáculo dantesco a crianças de 17, 18, 20 anos naquele momento de dor única e inigualável.

Em nenhum momento eles homenagearam e muito menos respeitaram a perda do pai. Material de campanha política foi distribuído já no velório.

Um verdadeiro veloriomício, expressão que me esforcei muito para não usar como título desse texto, porque chocaria mais ainda.

Confirma-se mais uma vez que o amor de mãe é algo intocável, sagrado.

Ana Arraes, mãe de Eduardo Campos, esteve todo o tempo fora das manifestações que ocorreram nesses dias, desde a morte até o velório e sepultamento de Campos.

E continua assim.

Mesmo antes do sepultamento, o irmão de Eduardo Campos já enchia o peito para anunciar a candidatura de Marina e se insinuava como vice.

Deplorável.

Não se deve avaliar a dor de quem quer que seja e muito menos como ela se manifesta. Como diz Caetano Veloso em uma de suas músicas, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Confesso, porém, que tive certa dificuldade em aceitar o comportamento de Renata Campos, a viúva de Eduardo Campos. Mas depois entendi que na verdade se aproveitaram da sua fragilidade naquele momento. Chegaram ao cúmulo quando tentaram coloca-la como vice de Marina, galgando-a ao posto de maior liderança do PSB.

A viúva de repente se tornara a maior liderança política do partido. Escancarava-se de maneira chocante a jogada política que todo o tempo comandou o episódio que envolveu a morte de Eduardo Campos.

A própria Marina também tentou convencer Renata Campos a ser sua vice.

A vida saudável exige a maturação dos seus acontecimentos.

Há um tempo para a celebração de todos os nascimentos.

E ele começa com a festa interior. A alegria do filho, do neto, do irmão, do sobrinho que nasce tende a se prolongar por toda a vida. Ao mesmo tempo surgem as primeiras dificuldades, os primeiros dissabores. É a vida chegando mais plena e nos dando cada vez mais o lastro para o que virá.

Há também um tempo para a celebração de todas as mortes.

A morte é dor. Doída, insuportável.

Exige um tempo para a reflexão. Daí pode nascer mais força para a vida.

Como terá sido a alegria de Eduardo Campos diante do nascimento de cada um dos seus cinco filhos?

Ele teve esse tempo.

Que papel desempenhará na vida dessas crianças a morte do pai?

Não deram a aqueles meninos o direito de sentir a morte do pai. E não há referencial maior para os filhos do que os pais.

Nossos pais são nossos heróis.

Não lhes permitiram o tempo para o ritual da despedida.

É a hora da dor chorada sozinho, com os irmãos, com a mãe, com a família, com os amigos.

São as primeiras dificuldades, os primeiros dissabores chegando.

Em momentos e de formas diferentes para cada um de nós, mas é a vida que chega através da morte, às vezes parecendo cruel, para nos ensinar a viver, dando-nos cada vez mais o lastro para o que virá.

É a maturação da morte na nossa alma.
Tão necessária à nossa vida.
E os demais?
Abutres.
É o que todos eles são.
Vão usar essa morte por algum tempo.
Um tempo com validade definida.
Aí Eduardo Campos finalmente descansará em paz
E será chorado só pela família.
Que os demais continuem a sua festa.
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